Entrevista Virtual

Dr. Sérgio Costa
com Dr. Sérgio Costa

   Veja as fotos da entrevista do Dr. Sérgio Costa
   para o CanalZero no Canal 20 NET, Canal 55 UHF, Canal 81 NET, .

Médico neurologista e neurocirurgião, perito médico legista e professor Universitário.

Micro Clonagem - substitui o transplante? Clonagem Humana (de Hitler aos tempos atuais), Esclerose Múltipla, Gestação Masculina, Projeto Genoma são assuntos abordados nesta entrevista virtual.
Outros assuntos estão na página Mesa Redonda.

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Número de crimes é inversamente proporcional ao número de abortos.

     John Donahue (Universidade Stanford) publicou um trabalho estatístico mostrando que o número de crimes é inversamente proporcional ao número de abortos, tanto no tempo como no espaço. Isto é, nos últimos anos o crime diminuiu nos Estados Unidos e os abortos aumentaram. Também a taxa criminal é menor nos estados onde o aborto é permitido. Paralelamente a esse achado, os políticos tentam mostrar eficiência manipulando dados vitais. Por uma questão de amostragem, definiram-se parâmetros para determinar o desenvolvimento de um povo. Entre eles estão a taxa de analfabetismo e o índice de mortalidade infantil. Embora seja evidente para qualquer um que o desenvolvimento depende de dinheiro bem distribuído, os políticos distorcem os fatos atendo-se a exclusivamente um ou outro aspecto - o que, claro, não dá a idéia do todo. Assim, clamam aos quatro ventos que caiu a taxa de analfabetismo sem dizer como verificaram isso nem se a alfabetização é funcional. Da mesma forma, concentram recursos no esforço para diminuir a mortalidade infantil (morte da criança antes de completar um ano) sem se preocupar como nem onde será criada essa criança. O que vale é a estatística.
     Pois de acordo com o Donahue, essa é uma política errada. No entender dos pensadores, a criança não desejada tem maior chance de entrar no mundo do crime. Não precisa ser cientista para notar que quanto mais dinheiro, menos filhos se tem e vice-versa. O rato, que compartilha noventa e tantos por cento do DNA humano, se agrupado, faminto e com frio tem bem mais filhotes do que se dado maior espaço, bem alimentado e em temperatura agradável. Supõe-se que a natureza provê a perpetuação da espécie e, portanto, se as condições forem desfavoráveis, dá maior prole para compensar os que morrerem. A analogia funciona para os seres humanos mas a interferência dos políticos atrapalha os desígnios da natureza, deixando sobreviver mais filhos. Fica claro que estamos no bonde errado. Os filhos têm que ser desejados e os esforços devem ser para que tenham ambiente acolhedor para se criarem. Da mesma forma, todo esforço deve ser feito para evitar a gravidez não desejada com o uso de preservativos, pílulas etc. e mesmo à custa de abortos. Ademais, quem tem dinheiro pode hipocritamente fazer um belo aborto. Quem não tem, depende de "curiosas" que matam ou de políticos que fraudam. Ninguém é a favor do aborto que é um ato violento de conseqüências psicológicas danosas. O que se deseja é a liberdade de escolha para a mulher que se encontra na difícil situação de ser surpreendida com uma gravidez indesejada. E a sociedade também deseja maior segurança nas ruas.
     A Clonagem Humana já teria acontecido?
Noticia do Japão informa sobre 4 crianças já clonadas que estariam vindo para o Brasil para apoio "político". Informação TV BAND, programa Márcia Bongiovanni, confirmariam: Os médico e a criança estaria vindo ao Brasil... No Jornal Correio do Povo (24mar03 - pag. 7) , comenta sobre Claude Vorilhon, conhecido como Rael, em visita a São Paulo, assegurando a realização de clonagem de seres humanos... Favor comentar sobre o assunto...?

     A clonagem de seres humanos, ainda que tecnicamente possível, é um passo num ambiente escuro e extremamente hostil. Um percentual muito diminuto (coisa de 2%) dos seres clonados sobrevivem e, destes, um grande número sofre de problemas sérios. Em outras experiências verificou-se que muitas vezes os resultados em animais não se repetem nos homens porque surgem distúrbios psicológicos ou emocionais que não se suspeitava pudessem existir. De modo que é muito difícil acreditar que a ousadia desses cientistas tenha ultrapassado todas as medidas do bom senso e mesmo de um humanismo primário. Por um lado, é muito tentador ser o primeiro a realizar um feito de tal magnitude, quase como rivalizar com o Criador. Por outro, os cientistas obedecem a uma ética não distinta do restante da humanidade. É clara a crueldade de conceber experimentos em anima nobili tendo que refugar um grande número de fetos e mesmo bebês defeituosos, permitindo que se criem os aparentemente sadios apenas para constatar, mais tarde, que são quase todos doentes.
     Custa acreditar, ainda, que nós, a comunidade humana, permitamos tal desatino nessas circunstâncias quando por erros mais comezinhos são condenados outros. O Brasil tem seguido o caminho histórico do amor e da fraternidade, em contraste com outros países que preferem a guerra. Certamente nosso legisladores se apressarão a normatizar a ilegalidade dessas aberrações "científicas".

     Na clonagem da ovelha Dolly, mais de cem tentativas apresentaram defeitos genéticos, tendo os fetos sidos sacrificados. Na clonagem humana qual o procedimento para estes fetos defeituosos? Seriam sacrificados?
     Na hipótese de serem feitos clones humanos com a tecnologia primitiva que temos hoje, aliada ao forte dogmatismo religioso, teríamos que nos haver com uma subespécie artificial de seres humanos. Podemos inclusive imaginar uma situação semelhante à apresentada por Huxley: seres inferiores programados para serem plácidos e resignados serviçais.

     Como assegurar o perfeito desenvolvimento mental de um feto? Como corrigir o prever o defeito mental genético à criança nascida de clonagem?
     Atualmente é impossível assegurar o perfeito desenvolvimento a partir de determinada carga genética porque temos acesso a um número limitado de gens que podemos analisar e modificar. Isso, no entanto, deve ser feito na célula primitiva. Ou seja, no feto a correção torna-se bem mais trabalhosa e menos eficaz.
     Corremos o risco de gerar um ser físicamente perfeito, mentalmente hiper evoluído e absolutamente inadaptado ao nosso habitat, portanto, à nossa sociedade?
     No futuro talvez exista essa possibilidade. Hoje, ainda não.

Perguntas de
Louise Nunes

     O que é clonagem?
     Podemos falar em três tipos de clonagem:
     Clonagem embrionária: por esse processo, multiplica-se o embrião do animal em estudo produzindo, assim, gêmeos ou trigêmeos, etc. É um processo similar ao da natureza. Embora já em uso há anos com animais, muito pouco foi experimentado com seres humanos.
     Clonagem de DNA em adulto: a célula embrionária, zigoto ou célula-ovo tem o DNA de seu núcleo substituído pelo DNA de um animal adulto da mesma espécie. A seguir, o procedimento prossegue pela rotina da inseminação in vitro: o zigoto assim modificado é implantado num útero e cresce até nascer. Note-se que o DNA mitocondrial não é substituído, daí o novo animal não ser tão idêntico ao animal adulto em pauta como o é na clonagem embrionária. Foram feitas experiências com algum sucesso usando ovelha e outros animais. Não se tem notícia fidedigna de ter sido feita qualquer experiência usando seres humanos.
     Clonagem terapêutica: é gerado um embrião pelo processo da clonagem de DNA em adulto. Porém, as células primitivas (células-tronco) são removidas do embrião para produzirem um órgão ou mesmo apenas tecido para ser transplantado na pessoa que doou o DNA. O órgão assim produzido não seria rejeitado. O resultado seria teoricamente perfeito. O embrião, que morre durante o procedimento, fornece uma questão ética - como, de resto, há questões éticas em todos os três tipos de clonagens, no momento em que são empregadas em seres humanos.

Perguntas de
Geraldo
São Paulo

     Será que, em algum lugar do mundo, exitem clones humanos, consequentes de experiencias especulativas e/ou clandestinas não publicadas? Quais as evidencias desta possiblilidade?
Valdeci Junior
Estudante de Teologia do UNASP
     A pergunta é interessante. Não se sabe, mas claro que é possível que já haja algum ser humano clonado em algum lugar do mundo. Nos EUA a firma Clonaid oferece os serviços de clonagem para quem acreditar, por apenas US$ 200.000,00 - ou para quem pagar mais, já que está ainda para aprontar o primeiro rebento. Dizem que tem uma fila enorme. Claro que é possível a clonagem mas para 100 tentativas em mamíferos, apenas uma é bem sucedida - e, pior ainda, ninguém garante a qualidade.

     Quais as implicações éticas que o Projeto Genoma Humano pode ter sobre a identidade humana?
     Já esta pergunta sobre a identidade, remonta-nos à situação dos gêmeos univitelinos, um fenômeno conhecido e banal. Os gêmeos são duas pessoas, apesar de serem originários do mesmo ovo? Claro que são. Por outro lado, gêmeos idênticos são mais idênticos do que clones, porque têm toda a genética exatamente igual, enquanto que, nos clones, só o núcleo é doado. As mitocôndrias do receptor, com sua carga genética, permanecem. Sendo assim, fica claro que cada clone vai ser um indivíduo diferenciado e único.
     Mas dá medo. O 1% sobrevivente das experiências não deve ser uniforme e, o controle de qualidade, esbarra na ética. Descartar os mal formados ou não? E se a má formação ficar evidente só depois que o clone estiver bem desenvolvido?

     Quando e por quem foi detectada a Esclerose Múltipla, a doença que estabelece várias falências no organismo?
     Charcot foi o primeiro a conceituar a desmilelinização e a caracterizar a patologia da doença, em 1868. Mas antes dele Cruveilhier já havia descrito entre 1838 e 1845 os sinais e os sintomas.
     E, antes ainda, Augusto d´Este, neto ilegítimo do rei Jorge III da Inglaterra já havia mantido um diário em que descreveu seus sintomas que haviam começado em 1822 com cegueira passageira de um olho. A doença foi progredindo como de costume e ele morreu 26 anos depois.

     A Esclerose Múltipla é um mal deste século?
O Dr. Jean Martin Charcot (1825-1893) - o pai da Esclerose Múltipla (EM) - foi patologista e um dos fundadores da neurologia. Nasceu em Paris, trabalhou no Salpêtrière e teve Sigmund Freud entre seus alunos. Charcot foi o primeiro a conceituar a desmilelinização e a caracterizar a patologia da doença, em 1868. Mas é possível que a doença já existisse bem antes. Há quem diga que foi uma mutação genética.
     Quais as principais manifestações?
A EM aparece por sintomas neurológicos episódicos. Começa, por exemplo, por uma fraqueza, dormência, enformigamento ou falta de firmeza em algum membro. Ou cegueira súbita em um olho. Ou desequilíbrio. Ou paraplegia. Melhora parcialmente e, tempos depois, surge outra manifestação. E assim vai indo. Geralmente começa antes dos 55 anos de idade
     Suas principais causas?
Provávelmente a EM tenha uma origem autoimune, isto é, o paciente passa a desconhecer os próprios tecidos, no caso a bainha de mielina dos neurônios. E ataca, destruindo alguns pontos.
     Sabe-se que é uma moléstia de progressão ao vegetativo, entretanto há novos tratamentos que “bloqueiam” sua progressão?
Não há hoje como prevenir as pioras da doença mas cerca da metade dos paciente ainda estão bem funcionais 10 anos após o início. Suprimir a defesa do paciente, equivalente a provocar um AIDS sob controle, através de medicamentos, pode bloquear a progressão da EM crônica mas este tipo de tratamento ainda está em estudos.
     Sua carga é genética?
É provável que haja uma susceptibilidade genética conforme estudos com gêmeos idênticos e casos familiares. Por outro lado, poderemos estar diante de mais de um tipo da doença.
     O meio ambiente pode ser um contribuinte ao desenvolvimento da moléstia?
É possível que o meio ambiente exerça uma influência também pois dá mais em pessoas de origem européia que vivem em latitudes de clima temperado. É interessante que as pessoas carregam o risco consigo quando se mudam.
     Há estudos e, pessoalmente venho sugerindo e até mesmo participando (ao longe) sobre casos de E.M. em cidades com extração de minérios, especificamente, o carvão. O contador Geiger não apresentou índices acima dos toleráveis próximo das minas, mas apresentou alguma contagem superior (não alarmante) em determinados pontos da cidade. Há conhecimento de algum estudo sobre o assunto?
Parece haver alguns relatos, por exemplo os encontrados por Terri Reuser, Lynne Hamilton e Peter Leroy, de que isoladamente ou em combinação o dissulfeto de carbono (CS2) de substâncias químicas e o hexeno (ambos sabidamente neurotóxicos aos seres humanos), podem ter efeito nas pessoas carreadoras do gen que controla a fabricação de mielina e mutar aquele gen de modo a começar a decadência da mielina.
     São conclusivos?
De maneira alguma.

     Qual a possibilidade sobre a possível gestação masculina. Seria desenvolvida junto aos intestinos?
     A gravidez masculina é possível mas envolve um risco inaceitável. O assunto tem sido cogitato até no cinema ("Júnior"). O ovo ou o embrião teria que ser implantado na cavidade abdominal após a respectiva fertilização "in vitro". A cavidade abdominal feminina tem recebido gravidezes ectópicas e, por falta procura por exames adequados, às vezes há fetos que crescem e desenvolvem-se. A maioria é interrompida por hemorragia séria mas cerca de 5% chegam a termo e são removidos por cesareanas. No momento, fazer um homem passar por alteração hormonal enorme para poder receber o implante, bem como passar pelos riscos inerentes à gestação ectópica seria uma insensatez não fosse antiético. Poderá haver outros locais que não o abdômen (que é óbvio apenas porque já ocorre em mulheres)? É possível. No entanto, como Golda Meir (1898-1978) disse: "O movimento de liberação feminista é só um monte de bobagens. São os homens que são discriminados. Eles não podem engravidar. E provavelmente ninguém vai resolver a situação."

     Qual o tempo possível para ressucitação em paradas cardio-respiratórias?
     A morte cerebral ocorre após 4 minutos sem oxigênio. Porém, não é fácil diagnosticar com certeza a parada completa cardio-respiratória. A sobrevivência é mais provável se o paciente for socorrido em menos de 10 minutos e transportado até o pronto-socorro em menos de 15 minutos. Após serem iniciadas as manobras de ressucitação, se estas forem eficazes, o tempo decorrido torna-se irrelevante desde que não seja muito ultrapassada a marca dos 30 minutos.

     Onde são e como estão desenvolvidas as micro clonagens?
     As microclonagens são, é claro, feitas nos gens dentro dos cromossomas. O que se tem feito é basicamente procurar onde estão os gens defeituosos e trocá-los utilizando pinças ópticas que usam raio laser. Este processo tem mostrado que não causa dano às estruturas biológicas mesmo com manipulações repetidas. Em plantas como o tomate a microclonagem está se desenvolvendo rapidamente. É um primeiro passo para que a genética seja cada vez mais facilmente modificada.

     Seriam as substitutas dos transplantes?
     Muitos gens humanos, quando defeituosos, estão ligados a doenças. Alguns destes já se conhece. Está se tentando no momento a troca. No entanto, a troca não dura muito e deve ser repetida. Já o transplante torna-se necessário quando a atividade do órgão é incompatível com a vida ou quase. No futuro, é possível que se possa substituir pelo menos uma parte da genética do órgão em questão, evitando, assim o transplante. Antes disso, no entanto, é provável que órgãos sejam desenvolvidos em laboratório a partir do código genético da pessoa doente e seja feito um transplante sem risco de rejeição. Ou então que células matriciais multipotenciais sejam infiltradas no órgão dando origem a mais órgão, desta vez saudável.

     Em quanto tempo?
     Possivelmente em 5 anos já se possa fazer auto-transplante com o auxílio do laboratório e talvez em 10 anos, injetar gens com tranqüilidade para substituir órgãos "in vivo". O progresso científico, no entanto, caracteriza-se por saltos inesperados de vez em quando.

     Qual o avanço que atingimos com o projeto Genoma?
     Com o acerto entre o HGP (Human Genome Project) governamental dos EUA e a Celera, foi possível divulgar 97% das bases do DNA humano, ou seja, quase todas as 3.100 milhões de bases. As 150 milhões que faltam são normalmente consideradas irrelevantes. No entanto, isto deve apenas ser considerado um marco na história da medicina. Do ponto de vista prático, é apenas um arcabouço. A Celera, firma particular, está bem mais adiantada que a empresa governamental, pois tem a seqüência exata enquanto o HGP tem as bases mas não a seqüência.

     Que progressos alcançaremos com a elucidação da cadeia de DNA?
     Há inúmeras perspectivas. O que houve agora foi a declaração de que o genoma humano está elucidado completamente - ou quase. Muitos gens já eram conhecidos e muitos cromossomas também. A engenharia genética é uma realidade.
     No futuro, provavelmente será possível criar seres vivos a partir de partículas moleculares inorgânicas. E não apenas seres conhecidos mas espécies totalmente novas. Seres humanos poderão ser envelhecimento. Criaturas diferentes do imaginado pelo criador poderão reproduzir-se e assombrar o futuro. Será possível descobrir as doenças que sofremos e as que haveremos de sofrer. Os mais valentes poderão descobrir quando e do que morrerão.

     A micro clonagem humana já está em processo?
     As células primitivas multipontenciais, que podem dar origem a qualquer célula diferenciadas, estão sendo avaliadas em pesquisas controladas. Com essas células, partes danificadas do corpo humano poderão ser reparadas.

     Seria a solução para substituir os transplantes, evitando-se rejeição, e produzindo-se o órgão "gêmeo" para substituir o afetado?
     A clonagem de órgãos inteiros para transplantes é certamente uma perspectiva fascinante mas envolve muitos problemas, até agora não solucionados. Por outro lado, a carga genética que deu origem ao órgão que acabou falhando muitas vezes é a causa primária do problema. Clonar sem corrigir o problema genético iria, quem sabe, perpetuar a doença.

     Já há trabalhos de micro clonagem específicos para o sistema neurológico?
     O cérebro, o segundo órgão predileto do Woody Allen, é passível de doenças degenerativas que destroem parte dele, dificultando o controle do corpo e, às vezes, o funcionamento da própria mente. Já se transplantam grupos de células para substituir as mortas em doenças como, por exemplo, no mal de Parkinson. Recentemente foram transplantadas células clonadas bovinas em ratos parkinsonianos com bons resultados. Não param de surgir resultados de pesquisas neste sentido. Não há dúvida que será possível substituir partes danificadas do cérebro para que a função retorne.
     Mais difícil será inverter a demência estabelecida no caso do mal de Alzheimer. Provavelmente primeiro será possível verificar se os gens responsáveis pela doença estão presentes e alguma prevenção poderá ser feita.

     Há novos conceitos éticos a serem apurados?
     A ética permeia arrepiada as pesquisas genéticas e seus resultados. Enquanto o cérebro não está envolvido na clonagem, não há objeções. A idéia de clonar um ser humano inteiro mais jovem para servir de depósito para futuros transplantes traz imediatamente à tona a questão da mente, da consciência deste ser. Como fazer para apagar esta consciência sem balançar a nossa?
     Casais homossexuais poderão solicitar (e certamente conseguirão) filhos clonados de um deles. Conhecidos os gens e suas características, seria tentador modificar a carga genética dos filhos para que saíssem de acordo com a vontade dos pais. Um ser humano possui uma carga genética que é 99,9% igual a qualquer outro ser humano. Isto, ao menos teoricamente, deve fazer os racistas repensar os preconceitos.
     Com a facilidade de patentear gens fica difícil imaginar qualquer progresso no sentido de curar doença. Por outro lado, a patente tem um tempo limitado e custa 250.000 dólares anualmente para ser mantida. Quando se souber a carga genética de cada um, será relativamente fácil descobrir o potencial genético do vizinho. Futuros sogros, companhias de seguros e patrões em perspectiva ficarão bem tentados a dar uma espiadianha.

     A clonagem científica esbarraria na clonagem industrial?
     Como acontece em muitas áreas, a ciência e a indústria têm um terreno comum e colaboram mutuamente. Removidos os problemas éticos, opinativos e de vaidade, é possível uma harmonia. Aliás, nos EUA, a divulgação da completitude do genoma foi possível graças à paz celebrada entre o projeto puramente científico governamental e a empresa industrial Celera.
     Por outro lado, os cientistas não estão isolados do mundo e reconhecem que auxiliam o progresso através da industrialização dos resultados que dão certo.

     Aconteceram pesquisas sobre clonagem na Alemanha, no período de Hitler?
     Esta questão foi levantada no livro "Os meninos do Brasil" de Ira Levin. Hoje é comum a preocupação com países que poderiam usar as técnicas de clonagem para tentar uma raça mais pura mas na Alemanha de Hitler não havia conhecimento científico para cogitar qualquer clonagem.

     Foram limitados a refinamento genético em busca de uma "raça ariana"?
     É. Na época, já se sabia que as características são herdadas dos pais. Assim como raças de cães e gado eram refinadas através de acasalamentos programados para que certas particularidades fossem predominantes, os alemães provocavam acasalamentos programados em seres humanos para que a raça chamada ariana ficasse cada vez mais perto do ideal pretendido. Fosse hoje, certamente convocariam os peritos em clonagem.

     Nietzsche previu uma raça de super homens, estaríamos mais perto desta raça?
     O super-homem de Nietzsche poderia ser um político mais ambicioso ou alguém que tivesse a vontade do poder sobre si mesmo para ter independência, criatividade e originalidade. Considerando que a manipulação genética pode, em princípio, dar origem a seres por encomenda, estaríamos perto deste ideal. No entanto, o ser humano é resultado não só da genética mas também do meio ambiente.
     Por outro lado, quem decidirá qual vai ser a manipulação genética de cada ser humano? Alguns acharão ótimo ter gente com ambição e agressividade exponencialmente maiores.
     Voltamos à questão ética.

     Quais os estudos da atual viagem ao King's College - Inglaterra?
     O King's College London é um dos centros mais avançados de pesquisa do mundo. Existem naturalmente várias pesquisas simultâneas. No momento, estamos (neste departamento) tratando de encontrar um melhor tratamento para a moléstia de Parkinson (1) e outras síndromes de distúrbio do movimento. Não só há vários tratamentos em estudo, como também tratamentos já existentes estão sendo reconsiderados porque novos efeitos surgiram. Nada disto é novidade, pois é a própria história dos tratamentos ao longo do tempo. Vamos aos dados: sabe-se agora que os agonistas D2 (2) como por exemplo o pramipexol, são neuroprotetores. Se vão continuar sendo, é outro problema. A seleginina (inibidora da MAO-B) (3) já não é a "estrela". Mas esta nova descoberta, até que seja desmascarada, oferece perspectivas excitantes. Por exemplo, novos modos de descobrir a doença antes dela manifestar-se, seja por aparelhos como PET (positron emmission tomography ou tomografia por emissão de pósitrons)(4), seja por análise genética, dariam novo alento a essas pessoas que jogariam tudo na neuroproteção, esperando nunca ter a doença. Modos de contornar a discinesia (5) provocada pela ingestão de levodopa (6) estão constantemente sendo experimentados. A própria palidotomia (7), tão popularmente utilizada em todo o mundo, causa efeitos que são considerados paradoxais à luz dos conhecimentos atuais dos circuitos dos núcleos da base 8).
     No momento, estudamos os efeitos moleculares (9) da palidotomia em macacos. Drogas neurotróficas (10) como o BDNF (11) e o GDNF (12) estão sendo estudadas sob vários ângulos, inclusive a respeito de sua penetração genéticas através de um vetor viral. Funcionando da seguinte maneira: Pega-se um vírus que infecte o sistema nervoso, por exemplo o vírus da encefalite herpética. Deixa-se a parte que penetra no cérebro mas tira-se a parte que destrói o cérebro. Insere-se o gen desejado no vírus, no caso o gen que fabrica dopamina. Provoca-se a infecção e fica-se aguardando as reações.
    Há tempos, alguns grupos de cientistas, particularmente na Suécia e nos EUA, vêm experimentando com transplante de células removidas de cérebros de fetos humanos. As células são transplantadas no cérebro de pessoas com mal de Parkinson. Estas pessoas têm melhorado, via de regra, por vários anos. A técnica entrava no detalhe ético do feto que normalmente é produto descartável de aborto provocado em países onde este procedimento é protegido pela lei.
(1) Doença descrita em 1817 por James Parkinson na Inglaterra e caracerizada por uma instalação progressiva e gradual de rigidez, paralisia e tremor. A doença de Parkinson resulta da morte de células cerebrais responsáveis pela síntese do neurotransmissor dopamina.
(2) Agonistas são drogas que agem no receptor de um transmissor e o receptor responde. É como uma chave falsa que abre perfeitamente a fechadura. Agonistas D2 são naturalmente os que agem nos receptores sinápticos D2. A dopamina tem vários receptores, todos eles D (de dopamina): D1, D2, D3, D4 e D5. Cada um desencadeia uma reação.
(3) A MAO (mono-amino-oxidase) é uma enzima que degrada as monoaminas como a noradrenalina e a dopamina. Existem basicamente dois tipos: A e B. A seleginina inibe a MAO-B.
(4) O PET até recentemente era somente utilizado em pesquisa. Mas foi industrializado e diminuiu consideravelmente de tamanho e hoje já tem uso clínico.
(5) Discinesia é um movimento súbito, imprevisível e involuntário, como torcer a mão ou levantar o ombro ou fazer caretas.
(6) Levodopa é a droga que, após ingerida, penetra no cérebro e lá é transformada em dopamina. A dopamina é necessária à função mas incapaz de penetrar no cérebro, devendo ser fabricada lá mesmo.
(7) Palidotomia vem a ser a destruição de um pequeno pedaço do globo pálido, um dos núcleos da base (vide 8). A palidotomia diminui a discinesia e também melhora outros sintomas da doença de Parkinson, daí o paradoxo: como é que melhora o que é movimento demais (discinesia) e também o que é movimento de menos (Parkinson)?
(8) Núcleos da base são grupos de neurônios que se encontram na profundidade cerebral e que servem de relé inteligente. Na verdade é um grupo complexo de relés que coordenam movimentos e intermediam sensações.
(9) Muitos conhecimentos da genética são usados para estudar-se os efeitos moleculares. Basicamente estuda-se o tipo de síntese protéica que é realizado após a palidotomia, em comparação com antes.
(10) Algumas drogas receberam o nome de neurotróficas porque foram descobertas quando promoviam recuperação ou mesmo o aparecimento de partes do sistema nervoso. Muitas delas depois foram vistas provocando reações bem diversas, como por exemplo, fazer brotar o rim.
(11) BDNF é um fator neurotrófico. É abreviação de brain derived neurotrophic factor ou fator neurotrófico derivado do cérebro. Foi chamado assim porque assim foi obtido experimentalmente pela primeira vez.
(12) GDNF é outro. Significa Glial cell derived neurotrohic factor ou fator neurotrófico derivado de células gliais. Também assim foi obtido pela primeira vez.

Perguntas dos internautas e as respostas do Dr. Costa, estão em Mesa Redonda, link nesta página.

Leia também a matéria sobre Genoma em OPINIÃO


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