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Quase Entrevista
com Sr. Pedro Amorin
Garopaba - SC - Brasil

     Em Garopaba, no lindo litoral de Santa Catarina, existe uma estrada que leva à Siriú, uma de suas praias, cerca de seis quilômetros. No meio do percurso há uma bifurcação à esquerda, onde se vê, bem à beira da estrada, duas casas. Uma mais velha, onde mora Seu Pedro Amorin e sua Cora, catarinense de lá mesmo que, em 94, contava 54 anos, com "a graça de deus".
     Uns dias antes do Carnaval e, até uns quantos dias depois - mais tempo que os planos iniciais - alugamos a casa ao lado, a mais nova, de seu filho e nora, que precisavam "capitalizar"...
     Seu Pedro vivia e até onde soube, vive até hoje, da roça e do gado.
     Os três primeiros dias de chuva passaram lentos e ele aflito, pois: "... havia alugado uma casa para a praia e tudo que fazia era chuva, e já pensava na atitude de devolver o dinheiro, pela vergonha..."

     Frente à inusitada afirmativa, resolvi convencê-lo de que a chuva não era sua responsabilidade, quando, depois de longo silêncio, veio a resposta:
"...era, sim!"

     Achei melhor conhecer seus bois.
     Conheci um bezerro de quatro meses que já me conhecia desde o primeiro dia, quando lhe dei um pasto, e o caseiro Pedro me disse:
"Acho, se bem conheço, que este já tem nome!"
     Sua pronúncia era dificultada por uma prótese dentária inadaptada.
Mas, alguns dias depois, já conseguia entender bem o sotaque, o português bem comum para os habitantes do meio rural catarinense e, especialmente a filosofia incomum de quem vive, como a terra vive, como parte integrante da paisagem.

     Levaram bem uns cinco dias para receber as primeiras perguntas diretas:
     "De onde é este lugar de vocês?
     Quanto tempo demora para chegar aqui?
     Que bom conhecer gente de tão longe, mas vieram só pela praia?
     Todo este povo que ouvi falar que vem, não mora aqui por perto?"

     Referia-se, naturalmente, à quantidade de pessoas que transformam a cidade de Garopaba, em um entupidouro de gente, sem acreditar que elas venham simplesmente pela praia, pelo surf da Praia do Rosa, porque em toda a sua existência, morando a três quilômetros do mar, "...jamais havia tomado um banho salgado..."

     Sua maior viagem havia sido, até quatro meses antes, Imbituba, cidade vizinha, a poucos minutos de distância.
     Fez então, sua grande viagem até Florianópolis, "...para tratar da doença..." acreditando ser o seu fim.
     Acho que fiquei mais uns dias para convencê-lo de que tinha saúde e, naturalmente, aprender um pouco mais com aquele Ente Humano, tão raro de encontrar.
     Aceitou o pagamento dos outros dias a mais que ficamos, relutante.
     Mas tivemos que comer melancias, milhos e aipins, como jamais havíamos comido na vida, pois tinha que fazer parte do aluguel, comer toda a horta se fosse possível, afinal: "...onde se viu pagar um, este tal de aluguel, a sêco..."

     Dizia:
     "Peixe eu compro, porque meu ofício é o gado e a terra..."
     "Assim mesmo, meu gado eu traio para viver. Depois de gordo, de criado, eu o mando a morte. Não é certo, isso. Tenho pensado muito nisto. Fazendo isto, acho que não vou me salvar..."

     Dois anos atrás, voltamos à sua casa, de passagem para Florianópolis, para entregar algumas fotografias que havia prometido, mas como ele não tem endereço, "...não tem correio para chegar".

     Sua felicidade foi tanta, que se permitiu, novamente, um abraço e, disse, baixinho: " ...o pedrinho cresceu...", referindo-se ao terneiro que levou nosso nome.
Pediu a Cora, imediatamente, que fizesse o café "...sabe,aquele mais forte..." Depois de algumas poucas horas de conversa e novos aprendizados, novo abraço de despedida, um "... tché ver, que passe logo..."

     E, novamente, entrou ligeiro pelos fundos da casa, escondendo o rosto.
     Do alto da pequena subida, vi sua mão acenando da janela pequena.


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